Humanidade míope, vida breve... o que o luto ensina?

Thursday, 21 May 2026
O texto abaixo divide as impressões sobre a partida de uma mulher admirável; desde o tratamento clínico, assistência funerária e reflexões de vida... como sempre, sem filtros e com honestidade crua.
Hoje é quinta, 21 de maio de 2026.
É o 141º dia do Calendário Gregoriano. Em 224 dias o ano acaba de novo. Eu poderia citar a fundação da FIFA, o nascimento de Hélène de Chappotin ou a comemoração da Língua Nacional. Mas, para mim, essa é a lúgubre data em que se completa o primeiro mês desde que minha mãe morreu.
Com as poucas palavras a seguir, não pretendendo honrá-la. São os atos e não o verbo que dignificam quem amamos. Também não discorrerei sobre ela, pois, sendo a mulher discreta que era, detestaria se ver descrita em um texto público. Não citarei a opinião de Emily Dickinson sobre a morte, nem evocarei qualquer trecho triste de canção ou um salmo aleatório.
Na verdade, esse não é um texto para minha mãe. Ela já não está mais aqui. Esse é um texto para todos aqueles que estão passando por algo similar – sejam pacientes ou familiares.
A vida é breve. A humanidade é míope. E está aí o tamanho valor de existir.
Era 6 de abril – a segunda-feira após a Páscoa – quando minha mãe pediu para ser levada ao Hospital Santa Catarina enquanto estava a caminho do salão de beleza. Sentia falta de ar. Como ela sempre teve problemas respiratórios, a situação não alarmou ninguém. Mal poderíamos imaginar que daquele lugar... de onde nunca mais sairia...
Foi internada no mesmo dia. Depois de longos exames descobriu-se o que tinha: um tumor uterino. Aos 83 anos. A notícia foi imprevisível. O choque, imediato.
Foram 15 dias de internação. Aos poucos fomos a perdendo antes mesmo de ela nos deixar. A consciência se esvaía conforme a doença avançava. A neoplasia é uma sentença de morte muito difícil de protelar. Mas ela lutou com bravura.
Resistiu bem ao primeiro ciclo quimioterápico. Sucumbiu ao seguinte...
A equipe hospitalar foi diligente. A ouvidoria da instituição recém-adquirida pela Unimed foi atenciosa e removeu imediatamente uma enfermeira grosseira que mal falava português. Seus profissionais – como a psicóloga Danyelle Eberle Nazario e o médico oncologista Marcelo Moser Fiamoncini – foram excepcionais e fizeram tudo que puderam.
Depois da noite em que ela se foi, os encaminhamentos burocráticos foram conduzidos de forma precisa. A Central Funerária da prefeitura – na pessoa do servidor Ambrósio Lenzi Júnior – também realizou um atendimento extraordinário e muito humanizado.
Contudo, não houve apenas bom profissionalismo.
O Plano Boa Vida teve um atendimento tão frio e irrelevante que serviu mais como um incentivo para cancelar o serviço indigno que tem oferecido. Mas o ponto alto da decepção foi o Crematório Neuhaus, um local cuja postura grita ‘desrespeito’ por todos os cantos.
Durante o velório um sujeito sem qualquer qualificação e com a empatia de uma pedra pediu para conversar com os familiares mais próximos na Sala de Acolhimento. O que você esperaria? Acolhimento? Não... o infeliz teve a hercúlea cara de pau de chamar uma família enlutada no meio do funeral para pedir uma avaliação positiva nas plataformas online para a empresa.
Mas piora. Seus profissionais – desrespeitosamente mal preparados – pareciam dificultar mais o processo burocrático do que facilitá-lo. E, por fim, até mesmo o vídeo da cerimônia funerária (a única coisa bem feita) sofreu com a falta de comunicação.
Uma incompetência inacreditável. Uma falta de humanidade abjeta.
Por fim, a missa de Sétimo Dia ocorreu na Catedral São Paulo Apóstolo. Também foi uma experiência decepcionante. O padre dedicou a missa à sua própria tia, negligenciando as outras pessoas que haviam partido. Posteriormente, outro padre conversava com um viúvo enlutado e ao ouvir que o homem cogitava suicídio, respondendo de forma tão leviana que – sinceramente – parecia estar no limiar de violar o Art. 122 do Código Penal.
As lições materiais
A primeira certamente é: não ignore sintomas. Não tenha medo de ser diagnosticado. Quanto antes você souber da doença, maiores serão suas chances de vencê-la.
Por enquanto, os planos de saúde de Blumenau funcionam. A Unimed cumpre bem o seu papel. Seu corpo médico é bom. O Hospital Santa Catarina é confiável. Não posso falar sobre os demais hospitais, porque me baseio nessa experiência específica.
A prefeitura tem deixado muito a desejar, mas sua Central Funerária é um exemplo de gestão.
Você tem o Plano Boa Vida? Cancele. Não serve para nada. Cemitérios como o São José e o Jardim da Saudade têm planos muito mais adequados e confiáveis. Se precisar de um crematório, fuja do Neuhaus. O São José tem uma ótima estrutura. O Vaticano também (mas fica no litoral). Talvez o único serviço crematório pior do que o Neuhaus, que me ocorra, seja o Comando Vermelho, num morro carioca, queimando pessoas vivas em pneus.
E se você for católico, há muitas igrejas mais acolhedoras do que a Catedral em Blumenau. Mas considere também buscar acolhimento em igrejas de outras religiões, como a Luterana, a Shalom, as neopentecostais ou o Centro Espírita Fé Amor e Caridade, que é uma referência em acolhimento solidário e trabalhos sociais por altruísmo desinteressado.
Mas, acima de tudo, reserve dinheiro para o inventário. No seu momento de maior dor, o Governo vai te usurpar o direito ao luto pleno. Afinal, ele lucra até quando perdemos as pessoas que mais amamos. Não se preparar para isso, pode te arruinar. E não subestime a importância de ter um bom advogado. Isso está fazendo toda a diferença.
A lição fundamental
Aproveite a companhia das pessoas que você ama. Viva cada momento. Não perca tempo com desavenças pequenas ou mesquinhas. O futuro ainda não nos pertence e o passado é algo que já perdemos. Tudo que temos é o que vivemos agora. Nunca se esqueça disso.
Sua mãe, seu pai e seus irmãos um dia não estarão mais aqui. Seus maridos e suas esposas também não são eternos. Nem nossos filhos vêm com garantia de que não sofreremos seu luto. O amor, no final, sempre dói (quando é verdadeiro). Então faça essa dor valer a pena. Crie as lembranças que construirão uma nostalgia boa em vez de arrependimentos amargos.
O corpo se vai, o amor fica.
C.S. Lewis cria que o luto é o amor que se preserva apesar da perda. Lemony Snicket fazia uma analogia com a perda: para ele, era como subir uma escada no escuro pensando ter mais degraus do que realmente tinha e surpreender-se quando o pé encontra o ar vazio no escuro.
Hoje o dia está bonito. Tem sol. Vá tomar algum ar fresco. Aproveite esse clima frio. Leve quem você ama para tomar um chocolate quente. Seja grato em vida. Reconheça e retribua enquanto a pessoa ainda está aqui. Ame e se permita amar. Construa seu presente de forma que seu futuro te traga uma vida sem arrependimentos. E, acima de tudo, seja feliz. Hoje.
Minha mãe viveu e morreu sendo feliz. Nunca conheceu absolutamente nada de ruim. Por oito décadas teve a vida mais plena que poderia ter tido. Amava Deus e a família acima de tudo. Cuidou e foi cuidada. Respeitou e foi respeitada. Foi amada por todos a quem amou. E nos deixou cercada por todas as pessoas que amava. Não conheceu a solidão e a dor por um único momento de sua vida. E ela mereceu todas as graças que recebeu, pois sua vida – por si só – foi um testemunho de fé. Uma doce ode ao amor por Deus e por Nossa Senhora.
Descansa em paz, mãe. Sinto sua falta, mas não se prenda a nós. Vá pra luz. Um dia nos vemos.