Mesquinharia e erros estão matando o Facebook

Mesquinharia e erros estão matando o Facebook
Foto: Divulgação

Friday, 08 June 2018

Dados de usuários vazados, aplicativos mais interativos, regras que praticamente forçam fanpages a impulsionar publicações e bolhas de conteúdo estão levando a plataforma para o mesmo limbo do Orkut.

Há duas décadas ninguém conhecia redes sociais. O próprio acesso à internet era limitado e exigia certo conhecimento sobre fóruns ou grupos de conversação (como o mIRC) para ter uma vida ‘social’.

Mas eis que surgiu o Orkut e tudo mudou. No começo exigindo convite para poder entrar, o Orkut virou uma febre e era usado desde aqueles que buscavam se reencontrar com velhos amigos de infância perdidos pelo tempo até para paquerar aquela menininha bonitinha.

Era depoimentos gigantescos, scraps com gifs que os tornavam cada vez mais bregas e as comunidades. A verdade é que nunca mais surgiu algo que se equiparasse às comunidades do bom e velho Orkut. E uma delas, em especial, era ‘O Dia Em Que o Orkut Morrer’. Para as pessoas – usuários ativos – isso era impensado. Então surgiu o Facebook e o Orkut morreu.

Poucos foram ao funeral.

Hoje quase ¼ da população mundial (1,37 bilhões de usuários) usa a rede social criada por Mark Zuckerberg. Contudo, assim como o Orkut, o Facebook também vem sentindo aos poucos um forte desgaste e, portanto, Zuckerberg comprou aquilo que considerava uma ameaça aos seus negócios: redes sociais como o Instagram e o WhatsApp, mas isso não diminuiu o desgaste do Facebook.

Tentando impedir o inevitável, a empresa entrou numa crescente de erros consecutivos. Seus usuários tem envelhecido e, portanto, tido menos tempo para navegar lá.

Porém, talvez uma das piores medidas da empresa, tenha sido diminuir o alcance das publicações de fanpages. Em nota oficial a rede de Zuckerberg afirma que a ação foi tomada porque as pessoas estão interessadas em ver o cotidiano de outras pessoas e não notícias. Por conta dessa medida, gigantes da comunicação, como a Folha de S. Paulo, saíram da rede social. Críticos da medida dizem que isso poderá aumentar a proliferação das fakenews, uma vez que as fontes de confiança deixam de ser exibidas.

Outros acusam a empresa de criar ‘bolhas’ que fazem os usuários verem apenas conteúdos que concordem com seus próprios pontos de vista. Assim, uma pessoa que acha que determinada coisa é errada verá apenas as opiniões de quem pensa como ela, criando uma inadmissível falsa certeza que transformou a plataforma num campo de guerra ideológico fútil.

Já alguns ex-funcionários do Facebook trazem outra versão. Para eles a redução da entrega de conteúdos de fanpages tem como mesquinho objetivo obrigar as páginas a impulsionar as publicações, uma vez que seu alcance está hoje 80% menor do que há três anos. Outra acusação feita é de que, seguindo o exemplo do Youtube (da gigante Google), o Facebook não distribui de forma minimamente aceitável links que remetam a sites que não sejam eles mesmos.

Para entidades jornalísticas isso tem e, ao mesmo tempo, não têm tanta relevância. Grande parte da importância do Facebook era usada por departamentos comerciais de sites, por exemplo, para convencer clientes usando seu número de curtidas. Contudo, o uso desenfreado e antiético de robôs (perfis falsos que curtem a página) minou a credibilidade do argumento. Aqui em Blumenau, mesmo, não é raro quem tenha usado dessa artifício deprimente.

Já do ponto de vista de ter seu material entregue, o Facebook nunca foi exatamente a principal ferramenta. Podemos usar a nós mesmos, BLUMENEWS, como exemplo: 68% do nosso tráfego diário vem de mecanismos de busca (como o Google), 23% de pessoas que nos têm como página inicial ou digitam nossa URL diretamente e apenas 9% vem do Facebook. Esse número, obviamente, caiu muito de alguns anos para cá, mas não refletiu no tráfego do site.

Já pequenos negócios como comércios ou empresas alimentícias estão preferindo aderir a outras redes sociais para divulgar seus serviços, como o Instagram (também pertencente a Zuckerberg). Mas uma parcela muito significativa está partindo para o Google (no caso de grandes marcas) e sites regionais (no caso das pequenas). O que tem se mostrado mais efetivo.

Claro que o fracasso de uma campanha publicitária no Facebook pode não ter a ver apenas com a plataforma, mas também com a falta de planejamento de marketing e execução profissional da campanha. Mas até mesmo algumas grandes agências estão começando a evitar a rede social em detrimento de outras ou de novos meios de marketing eletrônico.

Em dezembro de 2013 o Scup – uma empresa de monitoramento de redes sociais – fez uma pesquisa com 209 profissionais do ramo da Publicidade e constatou que para 89,5% eles o Facebook é o principal site em sua estratégia de mídias sociais, mas também que 41% dos entrevistados acreditavam que a rede perderia força a partir de 2016. O que aconteceu.

Boa parte dos usuários hoje está quase inativa. Postam fotos no Instagram, palpitam no Twitter (outra rede social que tem sofrido grande queda) e migram para fóruns e site como o Tumblr, além de usar aplicativos para vários fins, como no caso do Tinder para paquera.

Depois de seu fiasco no Senado, onde Zuckerberg teve que explicar porque informações de usuários de seu site foram vendidas a terceiros, redes sociais como a Ello despontaram nos Estados Unidos, deixando a amarga impressão de que o destino do Facebook é similar ao do Orkut e do MySpace. De acordo com a Universidade de Princeton, o site já perdeu 80% de seus usuários desde o seu auge até o momento.

De olho nisso – e no crescimento do Youtube – o Google está tentando criar uma área de interatividade e engajamento maior para a sua central de vídeos, uma vez que seu projeto Google+ era uma idéia natimorta que só não naufragou de vez porque a empresa pode mantê-la por orgulho.

A verdade é que aplicativos como o WhatsApp e o Instagram vem tornando o Facebook obsoleto para os usuários. Para as grandes empresas tem se tornado mais interessante investir diretamente no Google e para as pequenas em sites locais. E assim o Face vai agozinando.

Mas não desliguem as máquinas ainda. Nunca se sabe quando o paciente pode ter uma sobrevida.


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Ricardo Latorre

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