Trump abre guerra comercial

Wednesday, 02 April 2025
Medida põe economia global em alerta.
Donald Trump cumpre uma de suas principais promessas de campanha e promove uma reviravolta na política comercial dos EUA, com tarifas afetando o Brasil e mais de uma dezena de países. Nesta quarta-feira, ele anunciou a imposição de taxas de importação contra seus maiores parceiros comerciais, na esperança de reduzir o déficit de US$ 1,2 trilhão e retomar o projeto de hegemonia industrial dos EUA.
A iniciativa deve abrir uma guerra comercial de proporções inéditas, com diversos países preparando medidas de retaliação contra os bens americanos e a incerteza tomando conta dos mercados.
Transformado pelo movimento ultraconservador e nacionalista como "dia da libertação", a data deu anúncio das tarifas foi instrumentalizado pela Casa Branca para reforçar a ideia de que Trump está inaugurando uma "nova era" para os EUA. Abusando do termo "histórico", o governo insiste que a nova política comercial restabeleceria um domínio americano, empregos e um sentimento de superpotência.
A iniciativa, porém, vem repleta de riscos tanto para a economia global como para uma eventual recessão nos EUA. Estudos apontam que, se aplicada, a tarifas gerariam um impacto de mais de US$ 1 trilhão para a economia global, com parceiros como a UE, Canadá, México e outros preparando amplos pacotes de retaliação contra bens americanos.
No gabinete de Trump, a ideia é de que "certas dores" terão de ser suportadas no curto prazo para que o objetivo político de restabelecer a produção nacional seja atingida. O impacto, porém, pode minar outra de suas promessas de campanha: a de que o cidadão americano teria um melhor poder de compra e que a inflação seria controlada.
No caso do Brasil, as diversas tentativas de negociar com a equipe de Trump fracassaram. O Planalto colocou o vice-presidente Geraldo Alckmin para dialogar com a cúpula da Casa Branca e enviou uma missão de diplomatas para Washington. O argumento era poderoso: hoje, o superávit comercial é dos EUA e, portanto, não haveria motivos para uma taxa ao país.
Mas nada funcionou. Um sinal de alerta de que as tarifas viriam foi a impossibilidade de um encontro na segunda-feira entre Mauro Vieira e os americanos.
Negociação, OMC e retaliações
A resposta brasileira virá em três frentes.
Negociações discretas: O setor privado do Brasil vai tentar negociar uma redução de tarifas, cotas e isenções após anúncio de tarifas por parte de Donald Trump. A aposta agora é por buscar um diálogo, uma brecha que o próprio governo americano sinalizou como opção.
Em recente viagem aos EUA, interlocutores brasileiros ouviram das autoridades americanas de que o pacote de tarifas fazia parte das promessas de campanha e da narrativa de Trump de transformar o país. Ele não teria, portanto, como recuar.
Mas, ainda que eventuais medidas de retaliações sejam adotadas, a Casa Branca informou a deputados republicanos que haveria espaço para negociações. No recente encontro entre o secretário do Tesouro, Scott Bessent, e deputados da base de Trump, os parlamentares foram informados de que o governo prevê negociações com cada um dos países a partir da próxima semana.
Um segundo instrumento seria a elevação de tarifas. O Itamaraty considera que tem espaço legal para elevar as tarifas para os produtos americanos, sem violar os compromissos do país na OMC. Pelas regras, o Brasil poderia subir as taxas para até 35%, sem incorrer em uma ilegalidade nos tratados.
Um dos problemas é que tal medida poderia afetar as próprias empresas nacionais, que dependem desses produtos americanos. Uma das saídas, portanto, seria uma retaliação em serviços, remessas de royalties por empresas americanas e até no setor de propriedade intelectual.
Denúncia conjunta na OMC - Um terceiro caminho, ainda que simbólico, seria levar a disputa para a OMC, a Organização Mundial do Comércio. Governos como o do Canadá já adotaram a medida e a iniciativa teria como objetivo demonstrar que o Brasil atua pelas regras do comércio, e não por vias unilaterais. Mas com os mecanismos de solução de disputas inoperantes, qualquer ação na OMC levaria anos para trazer qualquer resultado.