A farsa do 'baixo desemprego' do Brasil

A farsa do 'baixo desemprego' do Brasil
Foto: Divulgação

Wednesday, 28 January 2026

Dados inflados escondem uma realidade que pode comprometer sensivelmente o futuro do país.

A economia brasileira vive um momento de contradições que impacta diretamente o cotidiano de quem empreende e consome em Blumenau. De um lado, o discurso oficial celebra o menor desemprego da história; do outro, lojistas e industriais do Vale do Itajaí enfrentam o maior desafio dos últimos cinco anos: encontrar pessoas dispostas a preencher vagas básicas. A escassez de mão de obra é tão aguda que setores como o de supermercados e a construção civil já operam no limite, com empresas oferecendo benefícios extras para tentar atrair candidatos que simplesmente não aparecem.

Essa "crise de abundância de vagas" revela uma distorção nas estatísticas. Grande parte da população fora do mercado de trabalho — como a chamada "geração neném" (jovens que não trabalham e não estudam) — não é contabilizada nos índices de desemprego por não estar ativamente procurando ocupação. Em Santa Catarina, esse cenário é ainda mais gritante: enquanto a taxa nacional gira em torno de 5,6%, o estado catarinense registrou um desemprego de apenas 2,3% no terceiro trimestre de 2025, evidenciando um apagão de mão de obra que trava o crescimento regional.

O impacto do assistencialismo e a falta do 'primeiro degrau'

Um dos pilares que sustenta a dificuldade de contratação, segundo análises do setor produtivo, é o crescimento do assistencialismo descalibrado. Atualmente, cerca de 44% da população brasileira recebe algum tipo de benefício social. Quando esses valores se aproximam do salário oferecido por funções de entrada — como repositores, caixas e serviços gerais —, o incentivo para o trabalho formal diminui, especialmente entre os mais jovens.

Para o mercado de Blumenau, isso significa a perda do "primeiro degrau" da vida profissional. Funções em supermercados e no comércio, que historicamente serviram como escola para milhões de brasileiros aprenderem disciplina e responsabilidade, estão desaparecendo ou sendo substituídas precocemente. Sem essa base, o futuro do mercado qualificado na região também fica comprometido, já que a experiência inicial é fundamental para a formação do caráter profissional.

Automação: solução ou sintoma do problema?

Diante do desespero por falta de funcionários, o varejo blumenauense tem acelerado a instalação de caixas de autoatendimento (self-checkouts). No entanto, o que parece evolução tecnológica pode ser, na verdade, um sintoma de um mercado de trabalho doente. Enquanto países desenvolvidos já começam a recuar na automação total em busca de um atendimento mais humanizado para reduzir furtos e aumentar a satisfação do cliente, o Brasil corre na direção oposta por não conseguir garantir o básico: trabalhadores para as operações.

A conta dessa ineficiência acaba sendo paga pelo consumidor local, que enfrenta filas maiores e serviços impessoais, e pelo empresário, que vê seus custos de rotatividade subirem. A realidade de Blumenau e de Santa Catarina mostra que, para o motor da economia continuar girando, é preciso mais do que números bonitos em Brasília; é necessário resgatar o valor do trabalho e a viabilidade do emprego de base.


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Rick

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