Por que a comida pode ficar mais cara?

Tuesday, 09 June 2026
Economistas elevam projeções da inflação de alimentos devido aos impactos combinados de conflito internacional e fatores climáticos no segundo semestre.
O bolso dos moradores de Blumenau e região pode sentir um peso extra nos supermercados nos próximos meses. Uma combinação de fatores globais e climáticos, classificada por analistas como uma "tempestade perfeita", acendeu o sinal de alerta e forçou economistas a revisarem para cima as projeções para a inflação dos alimentos no país. O cenário atual projeta que o indicador acumulado pode atingir patamares entre 7% e 8% até o final do ano, uma reversão expressiva em comparação com as estimativas iniciais que rondavam a casa dos 2% a 5%.
O avanço da carestia é impulsionado por dois grandes motores principais: os desdobramentos econômicos da guerra no Irã e a iminente ameaça do fenômeno meteorológico El Niño a partir do segundo semestre.
O peso da guerra no campo e no transporte
O primeiro grande impacto vem do cenário geopolítico internacional. O conflito no Irã trouxe reflexos diretos na cadeia de suprimentos global, afetando insumos cruciais para o agronegócio e para a logística de distribuição.
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Combustível: A alta do petróleo encarece o óleo diesel, combustível que move a frota do transporte rodoviário responsável por abastecer as prateleiras e feiras de Santa Catarina.
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Insumos agrícolas: O fechamento do Estreito de Hormuz durante o conflito pressionou fortemente o custo dos fertilizantes. Como o Brasil depende da importação desses produtos, as próximas safras tendem a registrar custos de produção mais elevados, cujo repasse para o consumidor final torna-se inevitável.
Clima instável e o risco para o hortifrúti no Sul
Somado ao cenário externo, o fator climático ganha corpo nas previsões para a metade final do ano. O El Niño — caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico na região da linha do Equador — altera consideravelmente a distribuição de chuvas. Historicamente, enquanto o fenômeno provoca secas severas nas regiões Norte e Nordeste, ele favorece a ocorrência de chuvas volumosas e tempestades na região Sul do país.
Essa instabilidade climática desafia diretamente a produção agropecuária. Os itens de hortifrúti, que possuem um ciclo de produção mais curto, são os mais vulneráveis. Devido à fragilidade dessas culturas a excessos climáticos, eventuais choques na oferta geram um repasse quase imediato para os preços praticados no varejo. Em contrapartida, analistas apontam que o café deve apresentar um alívio nas gôndolas, com projeção de redução de até 12,3% em seu valor acumulado após dois anos de altas consecutivas.
Histórico de preços e o cenário político
O encarecimento dos alimentos tem sido uma constante na rotina das famílias brasileiras. Entre os anos de 2020 e 2025, a variação da alimentação no domicílio registrou uma média de alta de 8,13% ao ano pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). O período mais crítico ocorreu no início da crise sanitária em 2020, quando o indicador atingiu a marca de 18,15%. Desde então, o único recuo registrado ocorreu em 2023, com uma deflação de -0,52% impulsionada pela ampliação da safra daquele período.
A persistência de patamares elevados impede o retorno dos preços aos níveis pré-pandemia e atinge com maior intensidade as famílias de menor renda, que comprometem uma parcela proporcionalmente maior de seus orçamentos com itens básicos de subsistência.
Especialistas indicam que o cenário deve influenciar as discussões políticas. A pressão inflacionária e o endividamento familiar tendem a ser utilizados como argumentos de desgaste pela oposição. Por outro lado, aliados do governo federal buscam contrabalançar o debate destacando outros indicadores econômicos positivos, como o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), a trajetória de recuperação do mercado de trabalho e os índices de redução da pobreza. Embora o cenário exija atenção redobrada pelo prolongamento dos efeitos da guerra, consultorias macroeconômicas descartam a ocorrência de um choque drástico ou descontrolado capaz de paralisar a atividade econômica do país.