Bizarro: IBGE prepara nova metodologia que incluirá drogas ilícitas no PIB

Thursday, 24 September 2026
Mudança nas contas nacionais segue diretrizes internacionais da ONU e impacta análise do crescimento econômico regional e nacional.
Uma reformulação metodológica promovida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) promete alterar a forma como o tamanho da economia brasileira é mensurado. A partir de 2028, a estimativa do Produto Interno Bruto (PIB) passará a integrar a chamada "economia não observada", o que inclui a mensuração indireta de atividades informais e mercados ilícitos, como o comércio ilegal de drogas.
A mudança, que integra o ciclo de revisão decenal das Contas Nacionais, começou a ser estudada em 2019 e teve suas primeiras projeções internas em 2021. A iniciativa alinha o Brasil aos manuais internacionais System of National Accounts (SNA), publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU), e às recomendações da agência de estatísticas da União Europeia, o Eurostat.
Para analistas do ecossistema econômico de Blumenau e de Santa Catarina, acompanhar a reformulação do indicador é fundamental para compreender as dinâmicas de consumo, arrecadação indireta e circulação financeira que afetam os polos industriais e comerciais locais.
Por que incorporar atividades ilegais nas Contas Nacionais?
A premissa técnica do IBGE é capturar com maior precisão toda a geração de renda e movimentação financeira existente no país, independentemente da legalidade do setor.
De acordo com Cláudio Gonçalves dos Santos, professor de economia da Fipecafi (Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras), o caráter ilícito de uma operação não anula seus reflexos no mercado. Atividades informais e subterrâneas geram fluxos de capital, empregos informais e consumo direto ou indireto de outros bens e serviços, afetando o funcionamento global da economia.
Em termos internacionais, a prática já é estabelecida em blocos desenvolvidos. Países da União Europeia adotam a obrigatoriedade dessa contabilização desde a década passada. No Reino Unido, por exemplo, drogas ilícitas e prostituição fazem parte do cálculo do PIB desde 2014.
Como será feita a mensuração sem dados formais?
Por se tratar de um setor sem notas fiscais ou registros públicos, o cálculo dependerá inteiramente de estimativas indiretas e cruzamento de bases administrativas de múltiplos órgãos.
Para estruturar a nova série histórica, o IBGE utilizará:
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Dados de apreensões policiais e investigações governamentais;
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Pesquisas de perfil de consumo e estimativas de preço de mercado;
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Estatísticas sobre fluxos de comércio e informações de saúde pública.
Reginaldo Nogueira, diretor-executivo do Ibmec (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais), destaca que o período de oito anos de estudos (de 2019 até o lançamento em 2028) é compatível com a complexidade técnica da transição. Ele ressalta que o ponto central para a credibilidade do indicador será a transparência em relação às fontes utilizadas, às margens de incerteza e à revisão da série histórica.
O PIB vai crescer automaticamente com a nova regra?
Especialistas indicam que a inclusão dessas atividades tende a elevar o nível nominal da economia (o valor total do PIB em reais), mas não garante necessariamente um aumento contínuo na taxa percentual de crescimento anual.
Historicamente, revisões metodológicas anteriores promovidas pelo IBGE já alteraram o patamar da economia brasileira:
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Revisão de 2007: Elevação de cerca de 11% no nível nominal do PIB.
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Revisão de 2015: Aumento aproximado de 5,5% no patamar econômico nacional.
Bráulio Borges, pesquisador do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas), avalia que um ajuste similar pode ocorrer no resultado de 2028. No entanto, para evitar que uma mudança de mensuração seja interpretada erroneamente como crescimento real da atividade produtiva, o IBGE precisará recalcular as séries históricas passadas sob os mesmos critérios.
Apoio ao planejamento público e segurança
Além do rigor estatístico, a consolidação desses dados traz desdobramentos diretos para as políticas públicas regionais e estaduais. Mapear o volume financeiro dessas cadeias fornece subsídios fundamentais para:
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Ações de Segurança Pública: Identificação de rotas de financiamento e aprimoramento do combate à lavagem de dinheiro.
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Saúde Pública e Regulação: Dados concretos sobre consumo para planejar redes de prevenção, tratamento e fiscalização.
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Avaliação do Bem-Estar Social: Leitura clara de que a expansão estatística da atividade econômica nem sempre reflete avanço direto na qualidade de vida da população.
A transição metodológica até 2028 segue em fase de testes pelo IBGE, garantindo que o indicador do PIB continue refletindo com precisão as transformações estruturais do mercado brasileiro.