Com o fim das bets, como reorganizar as contas da família?

Com o fim das bets, como reorganizar as contas da família?
Foto: Reprodução

Thursday, 08 October 2026

Estudo aponta alta de 20% na inadimplência de apostadores; saiba como renegociar dívidas e proteger o orçamento na região.

Com o encerramento definitivo das atividades das empresas de apostas esportivas no Brasil — determinado pela Medida Provisória nº 1.394, de 25 de setembro —, a população do Vale do Itajaí e de todo o país enfrenta o desafio de reorganizar o orçamento doméstico. Com sites e aplicativos saindo do ar, o fim das plataformas interrompe a oferta do serviço, mas não elimina os compromissos financeiros acumulados nem as sequelas deixadas na renda das famílias de Blumenau e região.

Os impactos financeiros das apostas eletrônicas são expressivos. Um estudo realizado pelo Insper em parceria com a fintech Stone revelou que, entre as pessoas que começaram a apostar, a taxa de inadimplência foi, em média, 20% maior nos 12 meses seguintes à primeira aposta. No mesmo período, o limite de crédito disponível para esses consumidores caiu cerca de 16%.

O reflexo no comércio e no consumo regional é evidente. Dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) indicam que a inadimplência ligada às apostas retirou R$ 143 bilhões do setor varejista entre janeiro de 2023 e março de 2026, encolhendo os recursos que antes eram destinados ao consumo essencial de bens e serviços.

Em 2024, estimativas do Banco Central apontaram que aproximadamente 24 milhões de brasileiros efetuaram ao menos uma transferência via Pix para empresas de apostas. Uma pesquisa da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) reforça o alerta: 37% dos entrevistados relataram que os gastos com jogos prejudicaram a compra de alimentos, enquanto 36% confirmaram impacto no pagamento de contas básicas.

“É preciso nomear o problema: aposta não é fonte de renda. O jogo de azar é um negócio em que o apostador perde no longo prazo. A expectativa de recuperar o dinheiro leva a novas apostas mesmo quando o resultado já prejudica as contas da casa e do trabalho. Dificuldade para parar, gastos escondidos e tentativas repetidas de 'recuperar o prejuízo' são sinais de alerta que merecem atenção e cuidado, não motivo para constrangimento”, explica Ralf Marcos Ehmke, conselheiro da BluSol, instituição de crédito com forte atuação em Santa Catarina, Paraná e São Paulo.

Três passos para reorganizar a vida financeira

Para as famílias e trabalhadores de Blumenau e municípios vizinhos que precisam restaurar o equilíbrio financeiro, o conselheiro destaca três orientações práticas:

  1. Mapeie todas as dívidas no papel: Liste a renda total, despesas fixas, parcelamentos, faturas de cartão e empréstimos para visualizar o tamanho real do comprometimento. Esse panorama impede decisões precipitadas com base apenas no saldo momentâneo da conta.

  2. Redirecione o dinheiro que ia para os jogos: Os recursos antes destinados às apostas devem ser usados prioritariamente para quitar e regularizar dívidas. Após o reequilíbrio das contas, esse valor deve formar uma reserva de emergência. Aposta não recupera prejuízo, apenas o amplia.

  3. Utilize o crédito de forma planejada: Modalidades como cartão, cheque especial e empréstimos devem ser reservadas para necessidades específicas, como compra de equipamentos, capital de giro ou ampliação de negócios. Evite contratar crédito para cobrir perdas com jogo. Avalie sempre o custo efetivo total antes de tomar qualquer valor.

Apoio familiar e atenção à saúde pública

A preocupação estende-se ao convívio social e familiar. “Se você percebe alguém nessa situação, converse em particular e sem acusações. Ofereça ajuda para organizar as contas, se a pessoa concordar, e proteja o próprio orçamento: não empreste nome, cartão ou senha, nem assuma dívida que não pode pagar. Apoiar não é financiar novas apostas”, alerta Ehmke.

O uso problemático de apostas também é reconhecido como questão de saúde pública. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece suporte às pessoas afetadas e aos seus familiares. Pelo aplicativo Meu SUS Digital, é possível acessar a opção "Problemas com jogos de apostas?". Nas cidades da região, as Unidades Básicas de Saúde (UBS) fazem o acolhimento inicial e o encaminhamento para os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) quando necessário.

Aos usuários que ainda possuem saldo em carteiras virtuais nas plataformas de apostas, orienta-se atenção aos prazos para a solicitação do resgate voluntário dos valores junto aos canais oficiais das empresas.

"Nosso crédito é produtivo e orientado. Por trás de cada operação existe um projeto de vida e de trabalho. O jogo é o oposto disso, é a renda que some sem deixar nada construído. Combater o sobre-endividamento e orientar o uso consciente do dinheiro faz parte da nossa missão desde a origem", conclui o especialista.


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