Representação feminina na política é barreira em SC

Representação feminina na política é barreira em SC
Foto: Divulgação

Monday, 29 June 2026

Levantamento aponta que mulheres ocupam apenas 7,8% das principais cadeiras eletivas no estado desde a redemocratização.

O cenário político de Santa Catarina apresenta um contraste profundo entre quem vota e quem é eleito. Embora as mulheres representem a maioria decisiva do eleitorado catarinense há mais de duas décadas, atingindo o patamar de 52,2% dos votantes em 2026, a ocupação dos espaços de poder institucional avança a passos lentos. Um levantamento realizado pelo Núcleo de Dados do Grupo ND revela que, de 1986 a 2022, apenas 48 mulheres conquistaram mandatos para os cargos de deputada estadual, deputada federal e senadora no estado, frente a 563 homens eleitos. O dado significa que, do total de 611 eleitos analisados no período histórico, somente 7,8% pertencem ao público feminino.

Nas seções eleitorais de Blumenau e de todo o estado, a força do voto feminino é numericamente evidente, somando mais de 2,9 milhões de eleitoras aptas em território catarinense em 2026. Historicamente, a igualdade em número de votantes entre homens e mulheres foi atingida em 2002 (50%) e, desde então, o crescimento permaneceu constante, superando os 48,9% registrados em 1994. No entanto, a evolução nas urnas não ditou o mesmo ritmo na composição das cadeiras legislativas e executivas.

Eleitos em SC (1986 a 2022)
┌──────────────────────────────────────┐
│ Homens: 563 (92,1%)                  │
├──────────────────────────────────────┤
│ Mulheres: 48 (7,8%)                  │
└──────────────────────────────────────┘

O avanço gradual e o recuo recente

A evolução histórica da presença feminina nos cargos avaliados aponta uma oscilação ao longo das décadas:

  • 1986: Apenas uma mulher foi eleita no estado.

  • 2018: Santa Catarina registrou o seu melhor desempenho histórico, com 10 mulheres eleitas, o que representou 16,7% do total.

  • 2022: Houve um recuo estatístico para 8 mulheres eleitas, reduzindo a participação feminina para 14%.

Para especialistas, o panorama evidencia entraves que vão além do período de votação. A doutora em Sociologia Política Adriane Nopes explica que o processo de inclusão é gradual e ainda esbarra em estruturas tradicionais. Segundo ela, em 2027 a Lei de Cotas completará 30 anos e os avanços observados em Santa Catarina continuam pequenos, o que demanda um desejo real de inclusão por parte das agremiações partidárias.

A legislação eleitoral vigente exige que os partidos reservem uma cota mínima de 30% de candidaturas para mulheres, prevendo também fatias proporcionais de financiamento de campanha e tempo de antena na propaganda eleitoral gratuita. Contudo, barreiras práticas reduzem a eficácia da norma. A historiadora Joana Pedro aponta que a participação feminina segue limitada por manobras que desviam o objetivo das cotas, incluindo a persistência de candidaturas fictícias (conhecidas popularmente como candidaturas laranja). Ela pondera que as mulheres que conseguem ingressar no meio político demonstram alta qualificação profissional, concentrando formações de ensino superior em áreas como medicina, docência, pedagogia, enfermagem e administração.

Raio-x da representatividade nos cargos

Os reflexos desse cenário repercutem de maneira diferente dependendo da esfera de poder:

  • Governo do Estado: Na história política de Santa Catarina, nenhuma mulher jamais foi eleita para o cargo de governadora titular.

  • Senado Federal: Desde a redemocratização, mais de 80% dos mandatos catarinenses na Casa foram exercidos de forma exclusiva por homens. O panorama atual conta com 2 homens e 1 mulher.

  • Câmara dos Deputados: Apresenta o desempenho mais favorável para a bancada feminina. Atualmente, as mulheres ocupam 5 das 16 vagas de Santa Catarina, o equivalente a 31,25% das cadeiras federais do estado — a maior proporção já registrada na história catarinense.

  • Assembleia Legislativa (Alesc): Na contramão do cenário federal, o parlamento estadual tem apenas 3 mulheres entre os 40 deputados estaduais, representando 7,5% do total. O índice atual é menor do que os patamares de 2010 e 2018, períodos em que a representação feminina na Alesc chegou a 12,5%.

Aline de Godoy, coordenadora de Orientação e Gestão Processual do Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina (TRE-SC), destaca que o desrespeito às cotas de gênero pode culminar no indeferimento do registro dos partidos. Sob a ótica da Justiça Eleitoral, a ampliação da diversidade nos postos de decisão — incluindo mulheres, negros e indígenas — fortalece as bases democráticas, garantindo que as demandas e vivências reais de diferentes frentes da sociedade civil sejam levadas em conta na formulação de políticas públicas essenciais.


>> SOBRE O AUTOR

Redação

>> COMPARTILHE