Esquema de atestados falsos em SC soltou criminosos

Wednesday, 06 May 2026
A dinâmica era simples, porém eficaz: a advogada articulava os pedidos judiciais baseada em atestados, exames e receituários ideologicamente falsos emitidos pelo médico.
Uma investigação do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) revelou um esquema alarmante que permitiu a saída de pelo menos 20 detentos do sistema prisional em Santa Catarina. A Operação Efeito Colateral, deflagrada nesta terça-feira (5), desarticulou uma rede que utilizava atestados médicos falsos para garantir benefícios judiciais a criminosos de alta periculosidade, incluindo chefes do crime organizado que atuavam na região.
O lide desta operação revela um cenário grave para a segurança pública catarinense: lideranças criminosas, que deveriam estar cumprindo pena na cadeia de Itajaí — unidade que recebe detentos de toda a nossa região, incluindo o Vale do Itajaí —, conseguiram progressão para o regime domiciliar com base em diagnósticos forjados. Uma vez fora das grades e sob monitoramento por tornozeleira eletrônica, muitos desses indivíduos romperam os dispositivos e agora são considerados foragidos da Justiça.
Como funcionava o esquema criminoso
Segundo o Ministério Público de Santa Catarina, a engrenagem do golpe contava com a participação direta de um médico e uma advogada, ambos residentes em Camboriú. A dinâmica era simples, porém eficaz: a advogada articulava os pedidos judiciais baseada em atestados, exames e receituários ideologicamente falsos emitidos pelo médico. Os documentos simulavam condições de saúde graves e inexistentes, o que induzia o Judiciário ao erro para conceder a prisão domiciliar.
As provas colhidas pelo Gaeco incluem arquivos digitais com tratativas diretas para a elaboração desses diagnósticos sob encomenda. O "preço" da liberdade ilegal variava conforme o caso: as investigações encontraram registros de pagamentos que iam de R$ 300 até a entrega de terrenos como forma de quitação pelos serviços ilícitos.
Prisões e resistência armada
Durante o cumprimento dos mandados de prisão preventiva, um incidente grave foi registrado: o médico investigado teria disparado contra o pé de um policial. Além dele e da advogada, foram detidos a secretária do consultório e um dos beneficiários do esquema.
A operação realizou buscas e apreensões em diversas cidades de Santa Catarina e também no Paraná, visando desmantelar a rede de apoio que permitia o fluxo desses documentos falsos. Os aparelhos eletrônicos e documentos apreendidos agora passam por perícia para identificar se outros detentos ou profissionais participaram da fraude.
As defesas do médico e da advogada declararam que aguardam acesso integral ao processo para se manifestar, mas reiteram a inocência de seus clientes até o momento. Para a segurança de Blumenau e região, o caso reforça o alerta sobre as fragilidades na fiscalização de laudos periciais e o risco do retorno de lideranças criminosas às ruas através de manobras judiciais fraudulentas.