Máfia da merenda em Blumenau: prints revelam rota da propina

Máfia da merenda em Blumenau: prints revelam rota da propina
Foto: Agentes do Gaeco em ação (divulgação)

Thursday, 21 May 2026

Investigação do Gaeco detalha mensagens com valores e paradas estratégicas de suspeitos para buscar dinheiro vivo no Paraná.

Mensagens trocadas entre os envolvidos no suposto esquema de corrupção na alimentação escolar de Blumenau, apelidado de "máfia da merenda", detalham como funcionava a engenharia financeira e a logística para a entrega de vantagens ilícitas. Documentos obtidos pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) revelam o envio de prints de calculadora e a descrição de rotas padrão para a retirada de dinheiro em espécie no estado vizinho, o Paraná.

Segundo as investigações do Ministério Público (MP), os diálogos apontam que o grupo havia estabelecido uma taxa fixa de 3% de propina sobre os pagamentos liberados pela prefeitura de Blumenau à empresa contratada para o serviço. Os repasses ocorriam de forma estruturada logo após a quitação das faturas públicas.

Mensagens e prints de calculadora

O material analisado pelo Gaeco mostra interações diretas entre os investigados apontados como pivôs do esquema no núcleo público. Em uma das conversas, César Botelho, que atuava como chefe de gabinete da prefeitura, enviou a Roni Wan-Dall o print de uma tela de calculadora com números que, conforme os investigadores, correspondiam aos percentuais da propina.

A denúncia aponta que Wan-Dall era o responsável pelo contato direto com a empresa fornecedora de alimentação, a Risotolândia, sediada em Araucária, na região metropolitana de Curitiba (PR).

A rota até o Paraná

Os documentos da promotoria descrevem o trajeto utilizado pelos operadores do esquema para buscar os valores em espécie. A rota padrão partia de Blumenau com destino a Curitiba e incluía paradas consideradas estratégicas. Os investigadores identificaram, por exemplo, registros de paradas em um posto de combustíveis localizado a apenas 750 metros da sede da empresa fornecedora.

Embora as viagens fossem frequentes, o Gaeco identificou ao menos um episódio em que Wan-Dall informou que "não precisaria subir porque alguém viria", o que sinalizou aos investigadores que aquela remessa específica de dinheiro seria entregue diretamente em Blumenau.

Bloqueio de bens e possíveis crimes

Diante dos indícios apresentados pela promotoria, a Justiça autorizou o bloqueio preventivo de R$ 3,6 milhões das contas bancárias de três suspeitos e da empresa envolvida. A medida atende a um pedido do Ministério Público que visa garantir o ressarcimento integral do dinheiro público aos cofres do município de Blumenau em caso de uma eventual condenação judicial.

O promotor encarregado do caso, Marcionei Mendes, explicou que os cinco investigados no processo podem responder formalmente por uma série de delitos graves, que incluem:

  • Corrupção ativa

  • Corrupção passiva

  • Fraude à licitação

  • Organização criminosa

A investigação segue em andamento, concentrada na análise de todo o material que foi apreendido ao longo deste mês e na realização das oitivas oficiais dos suspeitos.

Contrapontos dos citados

A reportagem buscou contato via mensagens e ligações telefônicas com os investigados Elizete Furtado, César Botelho e Ronaldo “Roni” Wan-Dall, mas nenhum deles atendeu ou retornou os contatos até o fechamento desta edição. O espaço permanece aberto para as manifestações das defesas.

Anteriormente, em nota sobre o caso, a assessoria de comunicação da Risotolândia informou que o proprietário Carlos Gusso desvinculou-se das atividades diárias da companhia em 2020 e se retirou formalmente dos atos societários como administrador em abril de 2021.

Em manifestações sobre o período de sua gestão frente aos desafios do município, o governo local ressaltou por escrito que enfrentou momentos complexos na história recente de Blumenau, citando o enfrentamento de enchentes e a pandemia, e defendeu que conduziu a cidade com responsabilidade, equilíbrio e compromisso com os cidadãos.


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Redação

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