Por que criminosos preferem golpes virtuais ao roubo nas ruas?

Por que criminosos preferem golpes virtuais ao roubo nas ruas?
Foto: Reprodução

Monday, 27 July 2026

Especialista explica como a falta de presença do Estado na internet e a burocracia aceleram a migração da criminalidade para o ambiente digital.

O avanço da tecnologia transformou os hábitos de consumo, o trabalho e a rotina dos moradores de Blumenau e de todo o país. No entanto, essa mesma expansão abriu espaço para uma mudança profunda no perfil da criminalidade no Brasil: a transição acelerada dos roubos físicos nas ruas para os golpes virtuais.

Em entrevista concedida ao projeto Brasil Adiante, do jornal Estadão, Fábio Diniz, presidente do Instituto Nacional de Combate ao Cibercrime (INCC), destacou a lógica por trás dessa escolha por parte das quadrilhas e facções criminosas. Segundo o especialista, sob a ótica dos criminosos, operar no ambiente digital tornou-se infinitamente mais vantajoso e menos arriscado.

"É mais fácil ser preso na rua do que na internet", sintetiza o presidente do INCC.

A desvantagem do Estado no ambiente digital

De acordo com o levantamento do INCC apresentado no debate do Estadão, embora o Estado possua, no papel, mais força do que o crime organizado, ele enfrenta uma desvantagem estratégica relevante no espaço cibernético.

A rápida expansão da infraestrutura digital no Brasil — processo fortemente acelerado a partir da pandemia de covid-19 — não foi acompanhada na mesma proporção pela presença das forças policiais e de fiscalização na internet. Enquanto o Estado necessita de processos burocráticos e ritos formais para coletar provas e atuar, o crime organizado opera com extrema rapidez.

Diniz explicou que as facções operam sem formalidades: ordens e diretrizes são repassadas em segundos por aplicativos de mensagem como o WhatsApp (os chamados "salves"), permitindo uma articulação ágil para aplicar fraudes em massa contra cidadãos em diversas regiões do país, incluindo o Vale do Itajaí.

Vazamento de dados e financiamento de facções

Outro fator crucial apontado na entrevista é a vulnerabilidade e o vazamento sistemático de informações pessoais da população, como dados de CPF e contatos bancários. Esses dados alimentam bancos de dados clandestinos que abastecem os estelionatários no planejamento de fraudes cada vez mais persuasivas.

Além do prejuízo direto causado aos cidadãos, investigadores alertam que o dinheiro obtido com os golpes virtuais e estelionatos digitais passou a ser utilizado para diversificar as fontes de receita de grandes facções criminosas brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).

Soluções e necessidade de foco na investigação

Para combater a onda de fraudes cibernéticas que atinge lares e comércios, Fábio Diniz defende que o enfrentamento não depende da criação de novas leis ou do endurecimento de penas, mas sim do fortalecimento das ferramentas de investigação e da presença estatal na rede.

Entre as propostas apresentadas pelo INCC ao projeto do Estadão estão:

  • Criação de uma agência nacional de cibersegurança: Centralização de diretrizes para combater a fragmentação atual das ações governamentais;

  • Investimento em tecnologia de investigação: Equipamento das polícias com ferramentas capazes de rastrear transações e identificar padrões de fraudes;

  • Superação da burocracia estatal: Mecanismos mais céleres para a obtenção e validação de provas digitais.

Até que essas medidas estruturais sejam consolidadas em nível nacional, a orientação para os moradores de Blumenau e região é reforçar os cuidados com a segurança digital, desconfiar de abordagens suspeitas por mensagem ou ligação e proteger rigorosamente seus dados pessoais.


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Redação

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