Lobos-guarás se alimentam na escadaria de igreja

Lobos-guarás se alimentam na escadaria de igreja
Foto: Divulgação

Wednesday, 06 March 2024

Reserva fica a 120 quilômetros de Belo Horizonte e conta com 12 mil hectares entre a mata atlântica e o cerrado.

No Santuário do Caraça, é como se os lobos-guará tivessem religião. Basta acabar a última missa do dia, por volta das 19h30, para que eles comecem a rondar a igrejinha dessa reserva no interior de Minas Gerais.

Os lobos sobem a antiga escadaria de pedras e se servem da comida deixada pelos funcionários. Enquanto isso, turistas reunidos em círculo os fotografam. Só mais tarde os bichos voltam para a escuridão da floresta.

A cena se repete quase todos os dias no santuário, que fica a 120 quilômetros de Belo Horizonte. É uma opção para quem quer se embrenhar no mato e esquecer a humanidade. Vale a viagem mesmo se o lobo-guará nem der as caras.

O Santuário do Caraça foi fundado em 1774 por um religioso português para ser uma hospedaria de peregrinos. Não teve muito sucesso em atrair colegas e, quando morreu, deixou o local para a coroa portuguesa.

Em 1820, houve uma outra tentativa de implantar um templo. Padres fundaram o Colégio do Caraça, que educava jovens na religião. A escola funcionou por mais de um século, até um incêndio destruir parte das instalações em 1968.

O santuário é hoje um hotel com capacidade para até 230 pessoas. Os quartos, de pé direito alto, são charmosos. Os tetos são decorados com entrelaçados de palha. Os pisos de madeira evocam histórias antigas.

O mais impressionante, porém, é a natureza. Ao redor do hotel há uma reserva de 12 mil hectares. A serra do Caraça —que dá o nome ao local— enfeita todo o horizonte. É como um rosto, daí "caraça" (cara grande).

Tamanha é a beleza da serra que o imperador dom Pedro 2º, que passou por ali em 1881, teria dito que "só o Caraça paga toda a viagem a Minas". A frase, de impacto, aparece em todos os cantos do santuário e em seus folhetos informativos.

Para conferir se o monarca exagerou, é bom reservar a hospedagem com antecedência. O processo é difícil. Parece que nunca atendem o telefone. É preciso mandar um email —e torcer para alguém responder a tempo.

Os preços variam de acordo com a temporada. A reportagem pagou R$ 500 por um quarto espaçoso onde, dizem os funcionários, se hospedou a imperatriz Teresa Cristina, que acompanhou dom Pedro.

O valor inclui café da manhã, almoço e jantar. As refeições, preparadas em fogão a lenha, são um atrativo em si. Estão no cardápio coisas como pão de queijo, feijão tropeiro e doce de abóbora, tudo servido à vontade.

A viagem de carro de Belo Horizonte ao Santuário do Caraça leva pouco mais de duas horas. O local está no caminho de Ouro Preto, razão pela qual pode ser interessante misturar os dois destinos em um mesmo itinerário.

Mais interessante, no entanto, é fazer a viagem de trem. A ferrovia entre Belo Horizonte e Vitória —uma das únicas a transportar passageiros todo dia no Brasil em longas distâncias— passa pela cidadezinha de Barão de Cocais, próxima dali.

O trem sai uma vez por dia, às 7h. A parada de Dois Irmãos, em Barão de Cocais, é a primeira. O trajeto leva mais ou menos 1h40. Da estação, é necessário pegar um táxi para os 30 minutos restantes (cerca de R$ 120).

Uma terceira opção é o ônibus que viaja entre Belo Horizonte e Santa Bárbara, por mais ou menos R$ 40. A duração é imprevisível, porém, indo de 2h a 3h. Também é necessário completar o trajeto contratando um táxi.

Uma vez no santuário, é possível visitar as ruínas das antigas construções, que remontam ao século 18. Há algo de mágico em encontrar, no meio da floresta, os restos de construções coloniais já esquecidas.

Há também diversas trilhas, algumas delas culminando em quedas d’água ou em piscinas naturais. Um dos destaques é a Cascatinha, uma tripla cachoeira de 40 metros de altura a 2 km do hotel. Leva 30 minutos a pé.

É uma pena que algumas das trilhas não estejam conservadas nem sinalizadas o bastante. A reportagem encontrou caminhos interrompidos por pinguelas submersas ou árvores caídas. É bom ter alguma cautela com as pedras escorregadias e os barrancos.

A cautela, em todo caso, é sempre necessária na natureza. E, ali, a natureza é excepcional. Isso porque o santuário está na transição entre a mata atlântica e o cerrado, misturando as formações vegetais de ambas.

Com sorte, o visitante pode ver animais como a anta e o cachorro-do-mato. Nada é garantido, é claro. Depende da vontade do animal —e do silêncio do visitante. Mais comum é o jacu, uma curiosa ave de papo vermelho.

Há, por fim, o lobo-guará. Aparece quase toda noite desde que, em 1982, um padre começou a deixar comida do lado de fora da igreja. Foram desde então diversas gerações do bicho que se acostumaram ao ritual. Às vezes trás um rebento ou dois.

O lobo-guará não é, a rigor, um lobo. É um canídeo aparentado aos cachorros e lobos. É o único representante do gênero Chrysocyon. O "guará" do seu nome vem da palavra tupi-guarani para "vermelho", a cor do seu pelo.

O bicho se equilibra em cima de patas finas pintadas de preto, como se vestisse botas. Dizem os funcionários do Caraça que ele é desconfiado e que sempre se preocupa em não ser vítima de uma emboscada.

O Santuário do Caraça chama de "hora do lobo" o momento do dia em que, finda a missa, colocam a mistura de carne e frutas para atrair o animal. Na noite em que a reportagem esteve ali, o prato tinha bananas.

Um funcionário do hotel arrasta o prato de ferro pelo chão, fazendo barulho para avisar o lobo. Daí em diante, a visita depende da sorte. O bicho vem quase todo dia. Mas, às vezes, ele vem apenas de madrugada.

Os hóspedes se sentam em círculo no pátio da igreja, em cadeiras de ferro pintadas de branco, e esperam. É um pouco irritante depender do silêncio alheio. No meio-tempo, o santuário oferece pipoca e chazinho.

Um a um, vão desistindo de esperar. Sobram apenas os mais insistentes, protegidos do frio com um dos cobertores que (a despeito da regra clara) retiraram de suas habitações e arrastaram pelo chão do hotel.

Pode ser que venham outros animais. Cachorros-do-mato rondam o estacionamento. Em alguns dias do mês, até as antas vêm comer. Em época de vagalumes, esses insetos revoam acendendo— e apagando.

Quando vem, o lobo sobe as escadarias ressabiado. Mas, acostumado ao público, se serve da marmita e se deixa fotografar. Dá as costas ao pórtico da igreja, ao altar, e volta para seus milhares de hectares livres.

SANTUÁRIO DO CARAÇA

O que é

  • O local foi fundado em 1774 por um padre português
  • Funcionou como colégio religioso desde 1820 até 1968
  • É agora um hotel com capacidade para 240 hóspedes
  • Fica dentro de uma reserva reconhecida pelo Ibama

Hospedagem

  • O valor varia com a época; mas gira em torno de R$ 500

Como chegar

De carro

  • São 120 km de Belo Horizonte até o Santuário do Caraça

De trem

  • O trem sai de Belo Horizonte às 7h, a caminho de Vitória
  • A parada mais próxima é Dois Irmãos, em Barão de Cocais
  • Ida e volta por R$ 44 na classe comum e R$ 72 na executiva
  • De Dois Irmãos, é preciso pegar um táxi (cerca de R$ 120)

De ônibus

  • Há opções durante todo o dia entre BH e Barão de Cocais
  • O trajeto todo dura entre 2h e 3h, a depender do trânsito
  • Ida e volta por cerca de R$ 80 (Viação Pássaro Verde)

Hora do lobo

  • O lobo-guará aparece de noite, e não tem horário fixo
  • O hotel não garante a aparição; ela é frequente, porém, para ver o bicho, a sugestão é ficar mais de uma noite

>> SOBRE O AUTOR

Redação

>> COMPARTILHE