Viagem pela rica herança portuguesa de Macau

Viagem pela rica herança portuguesa de Macau
Foto: Divulgação

Tuesday, 25 March 2025

As igrejas e a gastronomia, que remontam a séculos passados, ainda refletem o legado de Portugal à medida que Macau se integra na China.

A Praça Lilau parece quente e lânguida à luz do dia.

Como qualquer praça portuguesa, aqui o tempo passa devagar. Os habitantes locais conversam num café junto a um quiosque. Os viajantes tiram fotografias ao lado de edifícios caiados de branco. Um casal pára para admirar a calçada portuguesa, que se encontra em todos os sítios onde os lusos deixaram a sua marca.

Se não fosse a figueira-de-bengala com 200 anos e o melódico sobe e desce do cantonês no ar, poder-se-ia confundir este canto de Macau com um tranquilo bairro de Lisboa.

Olho para uma fonte que jorra água e penso num velho ditado sobre este lugar: quem beber esta água, um dia regressará a Macau.

Não sei se já bebi a água da fonte, mas esta é a minha sexta viagem à cidade, cada uma um pouco mais longa do que a anterior. De cada vez, dou por mim a ser atraído de novo para a extraordinária tapeçaria cultural, descobrindo algo de novo sobre o passado português de Macau e apaixonando-me de novo por ele.

Afinal, talvez a lenda tenha razão de ser.

Macau é mais do que apenas uma capital do jogo

Quando se fala em Macau, a maioria das pessoas pensa em casinos. Justo ou não, a cidade ganhou a sua reputação como uma potência do jogo.

Em 2024, arrecadou cerca de 25 mil milhões de euros em receitas de jogo, quase exclusivamente provenientes do bacará, o jogo de cartas preferido dos apostadores da China continental.

Mas muito antes de se tornar a capital asiática dos casinos, Macau foi um posto avançado vital no Império Português.

Atraídos pela sua localização estratégica no delta do Rio das Pérolas, os portugueses chegaram no século XVI e a colónia tornou-se rapidamente um importante centro comercial.

Ao longo dos séculos, Macau foi perdendo a sua sorte. Na década de 1990, tornou-se uma cidade do vício, dominada por Stanley Ho - "o padrinho do jogo" - e pelo seu monopólio dos casinos.

Após mais de 400 anos de domínio colonial, Portugal entregou Macau à China em 1999. Pequim não perdeu tempo a remodelar a cidade. Chegou mesmo a reclamar terras para fundir duas ilhas - Taipa e Coloane - criando a Cotai Strip, que alberga agora extravagantes casinos-resorts.

O enclave, outrora empobrecido, transformou-se rapidamente num dos mais ricos do mundo.

Os ecos de Portugal ressoam na velha Macau

Numa manhã perfeita de janeiro, com um sol suave a brilhar num céu azul brilhante, encontro-me com Mariana César de Sá para um passeio a pé pelo centro histórico de Macau, classificado pela UNESCO.

Nascida e criada em Macau, Mariana César de Sá publica o "Macao News", a principal fonte de notícias e estilo de vida em língua inglesa da cidade. Orgulha-se de mostrar aos visitantes a cidade para além dos seus casinos-resorts.

Encontramo-nos atrás do monumento mais famoso de Macau, as Ruínas de S. Paulo. Só resta a fachada de pedra desta igreja católica do século XVII, destruída por um incêndio séculos antes.

Antes de enfrentarmos as multidões de turistas que se aglomeram em frente à estrutura da catedral, que domina a velha Macau como uma porta para o passado, entramos num bairro para lá das antigas muralhas da cidade - o Pátio do Espinho. Outrora um assentamento para os cristãos japoneses exilados que construíram a igreja, hoje é um enclave de casas térreas.

"Gosto de levar os visitantes aqui primeiro. É cheio de história, mas também uma amostra da vida real", diz-me de Sá.

É também uma lembrança de quão longe os portugueses se aventuraram durante a Era dos Descobrimentos - como os seus costumes, arquitetura e religião se enraizaram nos cantos mais distantes do mundo.

Passear pela história para ver o melhor de Macau

A partir das ruínas, percorremos a Travessa da Paixão - uma ruela de paralelepípedos ladeada de edifícios coloniais em tons pastel que se tornou um íman para fotografias de casamento - e caminhamos lentamente por ruelas estreitas até ao Largo do Senado.

Quando chegamos à praça, o coração cívico da cidade, pavimentada com calçada portuguesa desde o século XVI, Mariana César de Sá gesticula em direção a um enorme edifício branco: o Gabinete dos Assuntos Municipais.

"Era a Câmara Municipal original do século XVIII - e continua a sê-lo atualmente - mas a maior parte das pessoas não sabe que se pode entrar nela", diz ela, entrando num pacífico pátio português ladeado de azulejos azuis e brancos que retratam cenas da história de Macau.

Todo o centro histórico está repleto de espaços secretos e edifícios centenários que continuam a funcionar atualmente. A Igreja de São Lourenço, de cor amarelo-canário, construída pelos jesuítas, ainda hoje celebra missas. O Clube Militar de Macau, de cor coral, outrora apenas para militares, acolhe agora os convidados no seu excelente restaurante português.

Alguns, como o Teatro D. Pedro V, do século XIX, têm um significado especial para além da história. "Transporta-me imediatamente para Portugal", diz Sara Santos Silva, originária do Porto, que vive em Macau há 10 anos.

"Nos meus primeiros dias em Macau, quando estava a ser levada pela sobrecarga sensorial de viver na Ásia, foi bom encontrar-me num ambiente familiar: uma calçada impecável, um quiosque como os que se encontram em Lisboa e a fachada verde pálida do teatro."

Até o Templo de A-Ma, do século XV, um santuário dedicado à deusa chinesa do mar Mazu, tem hoje um significado inesperado. Quando os colonos portugueses chegaram há séculos, interpretaram erradamente o nome do templo - "A-ma-gok" - como o nome da própria terra.

Legado português está também no prato

Talvez nada reflicta esta herança única como a comida de Macau. Desde a tranquila Coloane e a residencial Taipa até ao centro histórico, restaurantes com décadas de existência servem clássicos portugueses como bacalhau à Brás, sardinhas assadas e arroz de pato.

"Não há falta de opções. Sei onde me dirigir para comer uma francesinha mais do que decente, um prego como deve ser e um arroz de tamboril que me agrada logo", diz Sara Santos Silva. No pitoresco bairro de S. Lázaro, um grupo de restaurantes está a provar que isso é verdade.

Os irmãos Pedro e Mauro Almeida, nascidos em Chaves, juntamente com o sócio Ricardo e o fundador Asai, nascido em Hong Kong, transformaram vários edifícios antigos em pontos de referência onde provar a comida e o vinho de Portugal. O projeto mais famoso, o Albergue 1601, serve polvo grelhado, arroz de marisco e porco ibérico grelhado numa casa amarela histórica rodeada de árvores de cânfora centenárias.

Mas um dos seus mais recentes empreendimentos oferece uma interpretação mais moderna de Portugal.

Comida está a escrever o próximo capítulo da história portuguesa de Macau

Encontro-me com Pedro, Ricardo e Asai no 3 Sardinhas, numa noite tranquila de semana. Enquanto comemos petiscos como pica-pau e pimentos fritos, observo os recortes de revistas na parede e os covos pendurados no teto. Quando passo as mãos pelas macias almofadas vermelhas onde estou sentado, Ricardo lê-me o pensamento.

"São verdadeiros bancos de executiva dos aviões da TAP dos anos 50", diz-me. "Tudo o que está a ver são peças vintage escolhida a dedo em Portugal."

Asai apaixonou-se pela cultura portuguesa - especialmente pela cozinha - depois de se ter mudado para Macau e fez da sua missão revitalizar a presença portuguesa na cidade. Atualmente, o grupo gere quatro restaurantes, um espaço de workshops e uma pastelaria - todos eles homenagens carinhosas a Portugal.

Estes projetos não só trouxeram uma nova energia ao até então negligenciado bairro de S. Lázaro, como complementaram as suas instituições intemporais e as pequenas peculiaridades da vida que mantêm viva uma ligação com 400 anos.

"A maioria dos visitantes fica surpreendida com a presença desse património em Macau", diz-me Sara Santos Silva.

"Os nomes das ruas são em português. Os habitantes locais ainda usam uma ou duas palavras portuguesas nas conversas quotidianas. Tudo isto não só mergulha os viajantes no património, mas também dá aos residentes portugueses um sentimento de pertença que é honestamente muito difícil de igualar."


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Redação

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